TAÍS HIRATA
DE SÃO PAULO

Em meio às ruas coloniais de Santana de Parnaíba surgem setas amarelas, pintadas em postes e calçadas. Elas indicam o Caminho do Sol – a versão caipira do Caminho de Santiago, rota milenar de peregrinação europeia que culmina na cidade espanhola de Santiago de Compostela.

No caso paulista, o destino é Águas de São Pedro. Os 241 km que separam as duas cidades são percorridos a pé ao longo de 11 dias. O trajeto corta o Estado e passa por locais como Pirapora de Bom Jesus, Itu, Capivari e Piracicaba.

O caminho foi criado em 2002 pelo empresário José Palma, 65. Ele conta que a ideia surgiu depois de completar a peregrinação espanhola, há 20 anos. “Foi uma linha divisória em minha vida, percebi que estava tudo errado. Quando cheguei ao Brasil, não conseguia mais voltar ao trabalho”, recorda.

Depois disso, Palma vendeu a empresa de serviços de limpeza da qual era dono e se mudou para Águas de São Pedro. Foi lá que decidiu criar o Caminho do Sol. Até hoje, quase 13 mil pessoas já percorreram a rota.

Só o estatístico José Luiz Atman, 63, já fez o percurso três vezes. A primeira foi em 2006, alguns anos após um tratamento contra síndrome do pânico. “Comecei a caminhar porque li que produzia endorfinas. Não parei mais.”

Desde então, além do Caminho do Sol, fez quatro vezes o Caminho da Fé (entre Tambaú e Aparecida, no interior de SP) e cinco vezes o Caminho de Santiago.

“É uma experiência difícil de explicar, é um encontro consigo mesmo”, diz ele.

A motivação varia: para alguns, é esportiva, para outros, espiritual. O empresário Rafael Stein, 38, encarou como um “período sabático”. “Precisava tirar um tempo para reavaliar certas coisas. A chegada, depois de 11 dias, é emocionante”, diz.

Para Atman, um dos pontos altos se dá na altura de Piracicaba, onde o horizonte é tomado por plantações de cana-de-açúcar. “É um trecho introspectivo, sem nada em volta. Começa a passar toda a sua vida pela cabeça”, diz.

Para percorrer o circuito não é preciso ter preparo físico especial, mas é preciso força de vontade: por dia, anda-se 24 km, entre 6h30 e 14h, aproximadamente.

Entre subidas e descidas, a maior parte da caminhada é feita em estradas de terra, sem sombra, e é preciso levar na mochila água e algo para forrar o estômago.

As saídas acontecem toda quarta-feira, do centro de Santana de Parnaíba. Também são organizados grupos de ciclistas. Gastos com a inscrição, estadia e alimentação dos 11 dias saem por volta de R$ 1.700. As pousadas são selecionadas pela organização do caminho, e as refeições básicas são feitas em grupo. Informações no site Caminho do Sol.

Fonte:
Especial: morar | Folha – http://goo.gl/dD7rN3

Foto: Ze Carlos Barretta/folhapress