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Valeu gran

Foi diagnosticado como uma pessoa calma – ou talvez portador de uma certa letargia – voz grave e pausada, reações muito amenas, sempre com um olhar manso – suspeito como água parada.

Era o último a acordar, mas como dormia com a roupa para caminhar no dia seguinte, sentava-se à mesa do café ainda com tempo para desejar um sonolento “bom caminho” ao último peregrino que saia levando consigo uma fruta ou mastigando o último naco de pão com manteiga e geléia de não sei o que!

Tomava o café matinal alternando um gole de suco e a mordida no pão, com atrapalhados movimentos para vestir as meias e calçar pelo menos um pé de sua bota.

Quantas vezes, em meio ao caminho fora alcançado pelo hospitaleiro para lhe entregar o cajado, o celular, o boné ou um casaco que havia ficado na pousada. Sim, com o passar dos dias, descobriu-se que eram “deixados” e não “esquecidos” na pousada de onde saiam.

Chegou-se mesmo a aventar que tinha hábitos muito próximos aos de um asceta. O que fora descartado, porque gostava de estar com os demais caminhantes na rotina do dia a dia peregrino, durante as horas de convívio nas pousadas que os acolhiam ao longo do Caminho.

Tornou-se rotina – vez por sempre – pedir a alguém que lavasse sua roupa alegando alergia ao sabão.

Em tempos de Google, whatsapp, instagran, roda gigante e Netflix construímos um perfil indissociável deste nosso mosaico humano, em que o depoimento de terceiros pode definir o que é falso ou verdadeiro. Veredicto final: não era calma, era preguiça mesmo.

Somos todos portadores de estranhos impulsos, formatados pelo mesmo barro Divino e pertencentes à arquitetura criada por Deus à Sua imagem e semelhança. E aqui estamos para esculpir uma nova imagem e lapidar este diamante bruto – porque muitos de nós, um dia já pertenceu à família dos bonomos – uma espécie de macaco com hábitos muito próximos aos hábitos dos humanos.

Ao chegar de uma etapa, já no início da noite um peregrino – lhe perguntara qual o motivo de tanta demora – afinal, não era um dos trechos mais longos de todo o Caminho.

__Valeu gran… agradeço o carinho e preocupação. Mas não foi um surto de epifania em busca de alguma quimera não. Foi pregui… mesmo!

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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