Foi diagnosticado como uma pessoa calma – ou talvez portador de uma certa letargia – voz grave e pausada, reações muito amenas, sempre com um olhar manso – suspeito como água parada.

Era o último a acordar, mas como dormia com a roupa para caminhar no dia seguinte, sentava-se à mesa do café ainda com tempo para desejar um sonolento “bom caminho” ao último peregrino que saia levando consigo uma fruta ou mastigando o último naco de pão com manteiga e geléia de não sei o que!

Tomava o café matinal alternando um gole de suco e a mordida no pão, com atrapalhados movimentos para vestir as meias e calçar pelo menos um pé de sua bota.

Quantas vezes, em meio ao caminho fora alcançado pelo hospitaleiro para lhe entregar o cajado, o celular, o boné ou um casaco que havia ficado na pousada. Sim, com o passar dos dias, descobriu-se que eram “deixados” e não “esquecidos” na pousada de onde saiam.

Chegou-se mesmo a aventar que tinha hábitos muito próximos aos de um asceta. O que fora descartado, porque gostava de estar com os demais caminhantes na rotina do dia a dia peregrino, durante as horas de convívio nas pousadas que os acolhiam ao longo do Caminho.

Tornou-se rotina – vez por sempre – pedir a alguém que lavasse sua roupa alegando alergia ao sabão.

Em tempos de Google, whatsapp, instagran, roda gigante e Netflix construímos um perfil indissociável deste nosso mosaico humano, em que o depoimento de terceiros pode definir o que é falso ou verdadeiro. Veredicto final: não era calma, era preguiça mesmo.

Somos todos portadores de estranhos impulsos, formatados pelo mesmo barro Divino e pertencentes à arquitetura criada por Deus à Sua imagem e semelhança. E aqui estamos para esculpir uma nova imagem e lapidar este diamante bruto – porque muitos de nós, um dia já pertenceu à família dos bonomos – uma espécie de macaco com hábitos muito próximos aos hábitos dos humanos.

Ao chegar de uma etapa, já no início da noite um peregrino – lhe perguntara qual o motivo de tanta demora – afinal, não era um dos trechos mais longos de todo o Caminho.

__Valeu gran… agradeço o carinho e preocupação. Mas não foi um surto de epifania em busca de alguma quimera não. Foi pregui… mesmo!

Fonte: Tribuna de São Pedro