Diz a canção que “navegar é preciso”. Amantes do mar, admiradores do céu e fã das sereias, nós peregrinos estendemos as rimas e nos apropriamos da canção. Encampamos o apelo e o trouxemos para o continente – num arrobo de esforço neurológico procuramos alinhar o coração, conduzir a alma e elevar a mente fazendo com que nossos pés pudessem tocar o “inacessível chão”. Nele deixamos nossas marcas e levamos lembranças, nele deixamos nosso presente e sonhamos nosso futuro. Na geografia da estrada façanha e artimanha não rimam – não são “primas entre si”. Seguimos colhendo experiências, colecionando aprendizados e rabiscando nossa história – “caminhar é preciso” – afivelamos a mochila, empunhamos o cajado, ajeitamos o boné, botamos um sorriso no peito, os pés na estrada e partimos em busca das oscilações do destino.

Assim como a altimetria do terreno, a nossa psique balança entre a melancolia profunda e o riso incontido. Voos de águia à mergulhos de delfim pescador. Travamos combates interiores que vão da luta épica à guerra lipofóbica.
O primeiro quilometro é muito difícil, o segundo um horror, mas depois vai piorando – domamos o corpo, blindamos a mente e damos esperança à alma, seguimos em direção ao nada, dando um passo de cada vez.

Não somos ascetas, nem um bando de religiosos rubicundos, nem uma tribo de legisladores moralistas.

Este vício de seguir desenhando caminhos parece mais uma cocaína invisível – ouvimos Don Bosco e descobrimos que: “não é fácil, mas é possível”.

Um mosaico humano desconectado do drama cósmico, que segue caminhando em busca de um talvez imaginando um dia vislumbrar o trono da eternidade.

Caminhar é reformular a mente, é desacoplar a inteligência da consciência, é deixar o peso do “ter” e assumir a leveza de “ser” – é desbravar a si mesmo e descobrir as fronteiras do infinito.

È dar de cara com a parede. É olhar no espelho e não se reconhecer. É jogar luz em nossas sombras. É mastigar e ruminar nossas vísceras. Mas também é lapidar a alma, entender que o choro pode ser de alegria e que não raro a dor precede a glória. Entender que o amor potencializa a fé, que a humildade nos conduz à fraternidade, que a obstinação é a mãe da resiliência e o caminho descortina o nirvana.

É desenvolver hábitos que acrescentem vida aos nossos dias. É saborear o calor de um abraço. É compreender importância de um sorriso, a grandeza de um muito obrigado, o alcance de um olhar e o real significado da palavra amigo.

Olho para dentro de mim e constato o perfeito funcionamento de todos os meus órgãos. Percebo que tenho pulmões e respiro. Ganhei um coração que pulsa e me deu a vida para que eu a viva. Um par de olhos que me permitem ver formas, cores, geografias, pessoas e seres humanos, ouvidos para ouvir canções, lamúrias e tudo mais que apresente som ou ruído, olfato para sentir o aroma das flores e da vida, mãos para acariciar, para estender e para segurar o que a vida tem para me oferecer.

Ao final a surpresa: tenho dois pés!

São eles que me conduzem que me suportam. Que me permitem superar a topografia da minha vida.

Nossa! Tenho dois pés.

Sou um animal racional bípede.

Pertenço a este fantástico universo dos bípedes.

Fonte: Tribuna de São Pedro