Com a certeza que o mundo aboliu certezas começou a última etapa com vontade de não começar.

Um misto de tristeza e melancolia o habitou por inteiro quando abriu a última página do Guia. Sentiu o vazio provocado pela certeza que o final estava logo ali, pouco depois daquele sobe/desce. Foi invadido pelo desejo de não chegar ao fim – de congelar os ponteiros do relógio e esticar os quilômetros da estrada.

Vivenciou muitos e diferentes sentimentos. Passou por estágios de alegria, algumas tristezas, inúmeras perguntas e poucas respostas.

Sentia dores de todo tipo, forma e intensidade.

Doía o corpo e a alma – como a ressaca do dia seguinte – doía tudo!

Uma dor diferente – as dores do esqueleto amenizadas pelo excesso de beta endorfina – substância que o corpo libera durante os dias de caminhada – já as da alma – só com o passar do tempo. Um processo mais lento e cruel.

Descobriu que Deus, não é um executivo com tarefas e responsabilidades de bem gerir vidas – elaborar um planejamento estratégico, apresentar um balanço ao final do exercício, ou mesmo ser responsável pelo desempenho e expansão do Universo abrindo franquias do planeta Terra.

Descobriu que para ser peregrino há que ser paciente e determinado.

Descobriu a diferença entre teimosia e resiliência.

Descobriu que ao longo do caminho, as coisas não são como são – são comoção.

Comoveu-se ao lembrar que Clarice Lispector estava correta quando disse: “eu sou mais forte que eu”.

Comoveu-se ao apequenar-se diante das suas vaidades frente à magnitude da natureza e de seus mistérios.

Comoveu-se ao descobrir que segurar o cajado fez bolhas em suas mãos e provocou feridas no seu coração.

Comoveu-se ao descobrir que o destino é um deserto e que era o único herdeiro do seu passado.

Comoveu-se ao descobrir que uma coisa é uma coisa e que outra coisa é caminhar todo dia, diàriamente, debaixo de sol, chuva e muito calor. Subiu muitos quilos de subidas e desceu muitas dúzias de descidas carregando uma mochila cheia de pesadas reflexões.

Comoveu-se ao descobrir que no fundo, no fundo, preferia o raso.

Mas a comoção maior ficou por conta dos meses que vieram visita-lo depois de ter terminado o caminho. Revela-nos quase morrer de “indigestão”.

Segundo ele, à medida que vinham os insights com a leitura de tudo que viveu, ele tinha a sensação de que havia engolido um cacho de bananas verdes – uma coisa esquisita – que levaria ainda algum tempo para ser totalmente digerida.

Fonte: Tribuna de São Pedro