A rotina de estar com os peregrinos sempre as terças feiras é meu compromisso semanal – uma espécie de recreio.

Uma alegria poder estar com eles, sempre a véspera do início do Caminho.

A cada Passaporte entregue somamos mais amigos para dividir e desfrutar o convívio peregrino que de quebra, ainda nos permite pegar uma carona na caminhada alheia.

A cada carimbo carimbado, novas estórias são acrescentadas às vidas que colecionam quilômetros.

Um festival de diferenças iguais – que somam experiências multiplicam saber e dividem alegrias.

Entre uma mochila que se acomoda e um cajado que engatinha, eles vão se ajeitando no desajeito de cada um.

Entre nacos de mussarelas, napolitanas, rúculas e portuguesas divide-se muito mais que simples pedaços de pizzas. Divide-se abraços, sorrisos, apresentações e a ansiedade do primeiro passo.

Bebe-se refrigerante e embebeda-se de uma típica alegria peregrina – nova e contagiante.

Faltam ouvidos para ouvir tanta falácia gostosa, uma boa poltrona e paciência para ouvir.

Os ponteiros seguem firmes – avançam em busca de novas horas e ninguém percebe que é quase tempo de descansar – afinal o galo já prepara o gargarejo, umas voltas mais e é chegada à hora de botar o pé na estrada.

Mas entre eles havia uma peregrina do sul, que trazia em sua mochila a experiência de muitos caminhos já caminhados e um rol de estórias para contar.

E resolveu contá-las todas – uma por uma – de uma só vez.

À medida que os ponteiros avançavam na busca de horas menores, o público avançava em busca de camas maiores. Faltava atenção e sobrava sono.

E ela firme pontuando cada causo, com a energia e o entusiasmo pueril, característico de quem senta a mesa para tomar um lauto café da manhã.

Entre um ronco e uma cochilada dos três que ali educadamente permaneceram ela percebeu que falava para si e encerrando justificou:

__Desculpem! Meu (pobre) marido sempre disse que quando eu era criança devo ter tomado muita sopa de papagaio. Não é?

Fonte: Tribuna de São Pedro