O sol vai alto – minha sombra brinca e faz de conta que me acompanha.

Sua dinâmica me distrai e ativa minha imaginação com seus diversos formatos.

A cadência do cajado me conduz ao escuro túnel das lembranças e me convida a penetrar no universo habitado pelos devaneios.

Acesso a caixa preta – estou com 9 anos – no recreio do Dante Alighieri – devorando um sanduíche de pão com chocolate – pão com chocolate?

Sim – coisa de espanhol.

Inconsciente avanço no tempo e lembro-me de minha filha Camila, ainda pequena – detestava quando eu fazia meu sanduíche de pão com chocolate e com cara de nojo saia da cozinha.

Já pré adolescente – estou na porta da padaria comendo um pedaço de pizza, tomando Coca Cola e observando as idas e vindas das mesmas pessoas todo dia, na mesma hora – do mesmo jeito.

Aos 16, mesada curta tinha que batalhar uma grana, para bater o ponto no Good Joe – na Rua Augusta, e vitorioso saborear um hambúrguer besuntado de ketchup.

Vez por outra batia uma bolinha feita com maço de cigarros amassado – com ninguém mais, ninguém menos que Jorge Ben – que esnobava seu Karmann-Ghia amarelo.

Como uma enxurrada, as lembranças lavam minha alma e uma verdadeira correnteza de recordações me permite levitar na invisibilidade do tempo e do espaço.

Os registros surgem do nada – lembro desde o menino de quatro anos sentado em um velho tronco de madeira para tirar uma foto, até o que vivi nos dias de amanhã.

Fiquei perplexo pela definição e clareza com que as lembranças brotavam.

Pude fazer uma leitura ampla de toda minha vida, meus erros, meus defeitos, minha personalidade, quem eu era quem eu queria ser, do pai, do filho, do irmão, do primo, do amigo, do empresário e do ser humano que estava embaixo daquela pesada mochila.

Não me reconhecia no espelho da verdade.

Voltei e percebi que minha vida não caberia mais naquele velho script – e agora?

Fonte: Tribuna de São Pedro