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Solidão & Solitude

Meu coração acelerou, beijei e abracei demoradamente meus três filhos com um envolvente e longo abraço.

Tive a sensação que uma nuvem se acomodara sobre nossas cabeças e aquela água que banhou nossas faces era o choro de uma carregada nuvem cumulo nimbos.

Um misto de alegria, ansiedade, muito medo e frio na barriga, quando alguns passos adiante penetrei no túnel do futuro passei no raios-X e entreguei meu passaporte.

Com um forte nó na garganta virei para dar uma última olhada, um último aceno, a saudades deles pesou na minha mochila.

A partir de agora a solidão seria minha fiel companheira – era eu comigo mesmo.

Que surpresas o sonho silencioso que tanto acalentei, de um dia poder percorrer o Caminho de Santiago, iria agora me proporcionar.

Pela primeira vez em minha vida, aos 46 anos (faz tempo!) eu estava sem minha família, sem meus amigos, sem meus colaboradores – estava só, do outro lado do mundo.

A solidão me afligiu – quieto – envergonhado chorei um choro contido.

Um novo universo, cenários novos, os povoados pequenos e vazios aumentavam minha solidão.

O medo e a necessidade de não ficar só, me empurravam para junto de outros peregrinos – precisava de companhia – sentir vida ao meu redor.

E assim a cada dia imaginava que a solidão ficaria isolada – esquecida em um canto qualquer do meu “eu”.

Esta ilusão – a mesma do dia a dia que deixei em casa – não durou mais que uns 200 km. Depois de algumas horas caminhando ao lado de um chimarrão que empurrava um sábio gaúcho, esta pesada solidão foi me deixando, quando ele me ofereceu seu chimarrão. Enquanto eu sorvia aquela erva pelante, com a firmeza e a experiência que os anos lhe trouxeram, desvestiu sua mochila, tirou o boné enxugou a testa com as costas das mãos e calmamente me disse:

__Por que você tanto busca companhia?

__Para dividir minha solidão – respondi – meio sem graça, com visível insegurança.

__Experimente ficar só com você, compreenda que somos a melhor companhia para nós mesmos. Aproveite para conversar com você, divida seus segredos, erros, acertos, certezas, vitórias e derrotas, alegrias e tristezas, trevas e luz.

Veja como é bom ficar quieto, em silêncio conversando consigo mesmo – lavar a alma e aproveitar a sabedoria do seu “eu”- a isto damos o nome de solitude – faça dela sua verdadeira e constante companheira.

__Você nunca mais sentirá solidão – experimente!

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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