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Simples assim

Olhou para ele com o mesmo olhar invisível de quem olha para a vitrine de um sanatório – calado estava, calado continuou – verificou a coleção de carimbos recebidos ao longo dos últimos cem quilômetros – conferiu o nome que estava na Credencial do Peregrino e com a velocidade de um elefante siamês traduziu para o latim arrastando sua velha caneta pela superfície gráfica da Compostela – documento que atesta a realização da peregrinação – prêmio material para quem ao longo dos 800 km do Caminho de Santiago seguiu dando um passo de cada vez incansavelmente perseguindo a perseverança para conseguir entregar seu abraço ao Apóstolo e assim poder vestir um novo ser.

Com as mãos ainda molhadas por um suor bendito segurou o documento – olhou para a mochila e para o cajado elevando-os à categoria de amigos inseparáveis – tristemente entendeu que assim como os amores de alto mar terminam à vista do porto, o Caminho estava chegando ao seu fim.

Restava ainda mais uma etapa – caminhar mais noventa quilômetros até Finisterra ou Fisterra “fim da terra” e mesmo sentindo a majestade da dor poder contemplar os limites do infinito.

Como se estivesse parafusado à península imaginou que bem ali, do outro lado daquela imensidão de água repousava a África, Vênus brilhava e Saturno desfilava seus anéis.

À mente lhe surgiu a figura do filho nascido a pouco mais de um ano. Flutuando em exercícios futuristas seus devaneios vaticinaram que o primeiro veículo de seu rebento – por volta de 2030 – poderá dispensar sua presença como motorista promovendo-o ao status de simples passageiro.

Seguindo a tradição queimou umas poucas peças de roupa – renegou e desvestiu as más heranças do passado e como um general vitorioso estufou o peito poliu suas medalhas, tratou suas bolhas e partiu em busca de sua Fisterre.

Incrédulo leu a declaração impressa afirmando que: “o Conselho de Fisterra acreditava que ele – estava ali escrito seu nome – tinha chegado às terras da Costa da Morte e fim do Caminho “Xacobeo”

Abolindo a certeza que terminara seu treinamento para a morte sorriu para dentro de si mesmo lendo repetidas vezes seu nome no documento que expressamente atestava que o fim da terra existe e ele era testemunha viva de si mesmo – afinal “estava lá”, seu corpo e sua gordura “tinham chegado lá”.

Simples assim!

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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