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Sete notas e vinte e quatro letras

Caminho de Santiago, 15 de junho de 1996 – albergue de Hontanas.

Jantar comunitário. Onze peregrinos, oito homens e três mulheres terminam de comer.

Ao redor da mesa, o mapa Mundi identifica a presença de peregrinos vindos da Alemanha, Argentina, Bélgica, Brasil, Espanha, França, India e Itália.

A sobremesa é aguardada com um misto de ansiedade e expectativa. Camuflada – chega de mansinho com uma densa cobertura de disfarçado interesse, recheado com generosas porções de conhecimento.  É servida em imaginários pratinhos coloridos que permitem degustar relatos e interagir com seres de diferentes culturas, hábitos, crenças e religiões. Saborear as mais diferentes vivências e histórias pessoais. Um mosaico multifacetado compõe o estranho currículo deste aprendizado itinerante. Teses, conceitos e opiniões compõem uma geometria esquizofrênica. Uma coreografia com cores e formatos que dão brilho a este tratado sobre esquisitices brancas e curiosidades azuis.

Da mesma forma que os pedaços de pizza se unem para compor o todo, as cadeiras ao redor da mesa formam um comprido círculo retangular para alimentar a fome do saber.

O tema que surge cuida de oportunidades, igualdades, desigualdades e o “por que”, pessoas em diferentes lugares e situações, dispondo das mesmas ferramentas demonstram extrema competência, inteligência e criatividade permitindo que sua passagem pelo universo fique gravada no muro da eternidade.

Toma a frente um indiano, seguro que todos entendiam perfeitamente seu inglês pausado e macarrônico. Discorda do meridiano até ali traçado pela maioria e imaginariamente propõe alterar a linha do Equador.

Segundo ele, o universo nos deu sete notas musicais – por que então Astor Piazzolla, Carlos Gardel e muitos outros as organizaram com tamanha maestria e genialidade – se elas estão igualmente disponíveis a todos os mortais.

São as mesmas sete notas musicais com domicílio nos cinco continentes. Por que alguns diferenciados conseguem construir majestosas pirâmides de harmonia e musicalidade e o resto do mundo tropeça, gagueja e se engasga com elas?

O mesmo ocorre com a limitada Galáxia dominada pelo alfabeto, que nos oferece apenas vinte e quatro unidades. Misturando-as com inigualável talento, Dante Alighieri escreveu uma Comédia que atravessou séculos e até hoje é Divina.

Neste seleto universo de quem leva as letras para passear, habitam Willian Shakespeare, Gabriel Garcia Marques e um sem numero de outros fantásticos exemplos de criatividade e genialidade.

Estão todas disponíveis, basta saber desorganiza – las.

Pouco se importando se poderia estar impedido, nosso “hermano” o interrompeu, mirou o gol e chutou:

— A bola é igual para todos os jogadores – mas no mundo só existe um Maradona!”

E somente um único e inigualável Pelé – pensei aqui com meu cajado.

Como se estivesse habitando aquele momento por uma eternidade, olhei bem para ele e resolvi guardar a palavra.

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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