Alguns poucos peregrinos acreditam que caminhar incessantemente seja a garantia para ter direito a um cantinho lá no céu – provavelmente ao lado do Criador.

Nosso personagem assim como todos nós, tem muitos defeitos e algumas qualidades – carrega em sua mochila uma pesada carga pela soberba dos milhares de quilômetros caminhados.

Esta grande tribo de semeadores do bem é composta pela mesma estratificação humana que povoa nosso planeta; existem peregrinos introspectivos, alegres, falantes, calados, espirituosos, sérios, católicos, budistas, espiritualistas, yogues, de muitas religiões e a grande maioria – homens e mulheres que simplesmente querem caminhar e estar em contato consigo e com a natureza.

Mas nem tudo são flores neste jardim peregrino – existem muitos e variados espinhos neste aprendizado, um deles – pequeno e inofensivo – é a pessoa que sabe tudo, que entende de tudo e literalmente pisa em cima de quem queira ou não ouvir suas infindáveis catilinárias.

O caminhante que inspirou este artigo, desde logo revelou sua atitude soberana graças ao conhecimento e experiência adquiridos pela enorme quantidade de passos dados nos muitos caminhos deste mundo e pelos milhares de quilômetros que caminhou.

Sem sombra de dúvida um currículo raro e invejável, mas um caminhante para tornar-se peregrino precisa ter muito mais que um punhado de credenciais carimbadas – mesmo deixando suas pegadas em solos sagrados – caminhar é muito mais que dar milhões de passos no Brasil, Espanha, França, Itália, Portugal, Japão, Vietnã e Jerusalém.

Há que se colocar na mochila, uma boa carga de humildade, amor, fé, compreensão, fraternidade, uma tonelada de reflexões e diversos itens que ninguém nos conta antes – é preciso descobri-los por si só e para isto o ato de caminhar é uma das melhores e mais eficientes ferramentas para lapidar a alma.

Convicto que sua coleção de quilômetros o transformou em um ser diferenciado seguiu durante todo o percurso enaltecendo seus conhecimentos com uma enfadante falácia sempre ouvida por um persistente silêncio – este sim um comportamento verdadeiramente peregrino.

Ao final um dos caminhantes, alvo principal de sua metralhadora verborrágica encerrou seu depoimento com uma frase contundente tirada não sei de onde:

“Qui multum peregrinatur raro sanctificatur”

Apertando-se a tecla SAP:

“Quem muito peregrina raramente se santifica”

Fonte: Tribuna de São Pedro