Caminhamos de forma descomprometida com as demandas do universo, sem nos preocupar que os passos se transmutem em palavras.
Por vezes nos pegamos conversando com a cadência do cajado, com o barulhinho da brisa, com o rio que corre ou mesmo com o ritmo afinado e incomodo do pisar nas pedras – é prezado leitor, assim como na vida – o Caminho também coloca muitas pedras para vc passar por cima e atingir seus objetivos.

Conversei muito com meu silêncio – disse o peregrino durante nosso cafécomprosa.

Uma conversa séria, difícil – pude escutar o que alguém jamais me diria e se dissesse, eu com certeza não iria aceitar e tudo terminaria com uma grande e inútil discussão.

Durante um Encontro Internacional de Peregrinos realizado em Estocolmo foi criado um grupo de discussão, que inutilmente buscou uma definição acadêmica para saber o que é uma e o que é outra.

Como definir se aquele pacote de besteirol ou aquele desabafo repleto de bílis – por vezes sem sentido – seria uma conversa ou uma prosa?

Quem tiver ouvidos para ouvir que fale e quem tiver boca para falar – que ouça.

Depois de escutar uma longa catilinária que – seguramente – levou mais de 4.000 passos, ficou olhando para dentro de si mesmo, quando ao encerrar citando mãe Stella, o baiano arretado vindo de Feira de Santana, vaticinou:

__Por isto meu filho é que lhe digo – o cabra não pode ter a boca tão suja que não possa comer com ela.
Outro peregrino com os sentimentos ainda a flor da pele pela perda de um irmão, vinha contando em detalhes todo o processo da doença e sua rotina de cuidador e certamente com a imagem ainda presa em sua retina finalizou afobadamente:

____… Entrei no quarto pouco depois das 06h00min para lhe dar o remédio e logo percebi algo diferente, me arrepiei e fiquei gelado.

Caramba! Acho que ele morreu dormindo. E já acordou morto!

Fonte: Tribuna de São Pedro