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Prisioneiro de mim

Caminhar é uma forma de degustar em tempo real sentimentos ainda desconhecidos. Emoções ainda não vividas. Tristezas de um passado que ainda está passando. Alegrias abstratas de um futuro que já passou.  Uma experiência nua como as vestes de um nascituro e crua como a carne de um sushimi.

Ao longo da jornada fui provando muito de tudo.

Construí pesadelos e demoli sonhos. Como uma águia que cuida da presa – voei alto com os pés fincados no chão até perfurar as nuvens.

Como um martim pescador em busca da vida para poder viver, mergulhei fundo no imenso e revolto oceano do meu imaginário.

Ao avançar com a afoiteza dos prematuros me surpreendi com a verdade que vi surgir no espelho – fui tomado por um olhar invasivo que penetrou na memória da minha alma. Assustado vi surgir os traços parciais para destravar as amarras que me prendiam à “mesmice”.  

Vi surgir as pegadas dos passos primeiros – cujo destino seria a “libertação de mim mesmo”.

Sim – romper a linha do conhecido, do próximo, do longínquo, do incrustado, do antigo, do velho, do ultrapassado, do costumeiro. Saborear a liberdade e singrar novos mares.

Buscar o impossível – caminhar pela complexa estrada do além até abraçar o tesouro que repousa ao pé do arco íris. 

Por que nos prendemos às mesmas coisas, às mesmas situações, aos mesmos lugares, às mesmas pessoas?

Tudo é estranho – são estrangeiros – talvez Marte, Saturno ou Eslovênia. 

O apego aos bens materiais – que nem são meus – me foram emprestados enquanto usufruo “este corpo que habitamos”.

Ao final – quando cheguei ao “fim da terra” – em celta Finisterre – para cumprir o tradicional ritual de queimar o passado e parir o futuro, rosnei entre dentes, pedaços de uma canção tão antiga como minha juventude:

“… a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores o mesmo jardim…”

Não sei por quanto tempo rezei – quando acordei decidi que sairia em busca de novos bancos, de outras flores, de muitos jardins.

__Não quero mais ser prisioneiro de mim.

Há vinte anos vivo e convivo com peregrinos e seus universos, confesso que após ouvir seu relato cheguei a conclusão que para nós peregrinos, voar e mergulhar são sinônimos.

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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