Deu bom dia – puxou a cadeira tomando o cuidado de manter sob controle o prato de frutas que segurava com a outra mão.

Tomou um gole comprido do suco de laranja, colocou o copo sobre a mesa e perguntou:

__Este copo está meio cheio ou meio vazio?

Antes que uma sinapse (contato entre os meus neurônios) fosse ativada para lhe responder – prosseguiu com voz serena e pausada explicando que sempre olhou a vida com olhos saudáveis – um olhar gordo e empanturrado de alegria. Coração pleno de “bem viver”. Olhar de quem busca o limite do infinito e se permite transpassar o perímetro material – olhar de quem consegue enxergar além da curva, olhar vivo de quem sabe onde dorme o arco íris. Sempre entendi – prosseguiu – que um copo pode estar meio cheio, jamais meio vazio. Trajando esta moldura parti para meu primeiro Caminho levando comigo uma mochila repleta de interrogações, e a cabeça envolta em uma teia subjetiva de significados; Para ao final descobrir que nada significam – são apenas significados! Enquanto as subidas eram ferramentas que me permitiam vislumbrar lindas paisagens, para muitos eram apenas diferentes níveis de penitência. Quando o silêncio e a quietude me mostravam a diferença entre alma e desejo, muitos mergulhavam no poço da solidão e se afogavam no escuro desespero de gritar para ninguém. Quando as longas distâncias mostravam que lá longe, verdadeiramente é “lá longe” – busquei alcança – las com parcimônia – curtindo a natureza, harmonizando a respiração, tomando muita água e dando um passo de cada vez.

Guardo comigo as palavras de Nietzsche: “o que não me mata me fortalece” e assim, como no caminho da minha vida o meu caminho foi uma conquista a cada dia. Superei todas as dificuldades com um sorriso aberto no peito, amparado pela certeza que seriam para ampliar meu aprendizado e para proporcionar mais experiência e maturidade.

O mesmo caminhante que reclama dos pés encharcados pela chuva resmunga quando o sol acaricia sua pele.

A mesma caminhante que reclama do calor pragueja quando o frio lhe abraça.

A subida cansa, a descida machuca, a curva é muito acentuada e a reta nunca termina…

O pó impregna a face, entope o nariz e coça a garganta, a lama é escorregadia e os pés atolam no barro.

Tem quem reclame que as setas não indicam os quilômetros a percorrer, tem quem reclame que as setas indicam quantos poucos quilômetros faltam para o próximo banho.

Para muitos o mundo nunca lhes sorri, nada está bom, tudo e todos existem como paradoxo de um enorme apocalipse para que o caos seja perene.

__Parabéns pelo seu otimismo e pela forma como caminha pela vida afora.

__Eu diria que não sou um otimista, sou apenas um pessimista que não deu certo.

Fonte: Tribuna de São Pedro