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Pés que coçam

Depois da pizza de confraternização, sentados ao redor de uma enorme mesa colonial sempre rola um papo mochileiro.

Os peregrinos trazem consigo um linguajar próprio, carregado de experiências, aprendizados, contos e causos recheados de bolhas conquistadas ao longo dos muitos caminhos já caminhados.

Características regionais contribuem para formar um coral com os mais variados sotaques – na verdade uma balburdia gentil e bem organizada.

Um painel formado por unidades pontudas e heterogêneas que ao longo da jornada assentam uma sinergia própria e como seixo rolado vão se lapidando, para ao final fundirem-se em uma peça una e multicolorida.

Culturas diferentes, de diferentes regiões – uma mescla de seres humanos com denominador comum e objetivos parecidos – cada qual do seu jeito e pisando à seu modo.

Os novatos empurram o tempo para enganar o sono, afinal a ansiedade – atrevida – será fiel companheira desta travessia.

Noite longa – pensamentos deselegantes seguem voando por úmidos e escuros corredores; a constatação que o ser é muito diferente do ter torna lenta esta compreensão. Um verdadeiro pé no peito, uma sensação inespacial – parece uma enfermidade incurável – para muitos um bolo amargo, difícil de digerir.

Dormem aos soluços, consultam o relógio pensando que é chegada à hora do primeiro passo – mas os ponteiros preguiçosos mostram o contrário.

Estranham os colchões, incomodam-se com os beliches e com o frio úmido de uma Santana de Parnaíba que mora à beira do Tiete. Sentem-se desconfortáveis com o ambiente coletivo e a perda da privacidade – assim, antes mesmo de avistarem a primeira seta começa o aprendizado. Aquele monte de gente que se conheceu quando a lua iniciava sua jornada está ali, juntinho e grudado como arroz japonês.

O coletivo apresenta uma sinfonia de roncos, barulhos e sons tenebrosos.

Quando percebeu que dentro em pouco seria o fim da madrugada, levantou-se já vestido, esfregou os olhos, coçou a cabeça e em alto e bom som, disse baixinho para si mesmo:

__Não agüento mais, meus pés coçam para caminhar.

E saiu.

Fonte: Tribuna de São Pedro

 

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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