Depois da pizza de confraternização, sentados ao redor de uma enorme mesa colonial sempre rola um papo mochileiro.

Os peregrinos trazem consigo um linguajar próprio, carregado de experiências, aprendizados, contos e causos recheados de bolhas conquistadas ao longo dos muitos caminhos já caminhados.

Características regionais contribuem para formar um coral com os mais variados sotaques – na verdade uma balburdia gentil e bem organizada.

Um painel formado por unidades pontudas e heterogêneas que ao longo da jornada assentam uma sinergia própria e como seixo rolado vão se lapidando, para ao final fundirem-se em uma peça una e multicolorida.

Culturas diferentes, de diferentes regiões – uma mescla de seres humanos com denominador comum e objetivos parecidos – cada qual do seu jeito e pisando à seu modo.

Os novatos empurram o tempo para enganar o sono, afinal a ansiedade – atrevida – será fiel companheira desta travessia.

Noite longa – pensamentos deselegantes seguem voando por úmidos e escuros corredores; a constatação que o ser é muito diferente do ter torna lenta esta compreensão. Um verdadeiro pé no peito, uma sensação inespacial – parece uma enfermidade incurável – para muitos um bolo amargo, difícil de digerir.

Dormem aos soluços, consultam o relógio pensando que é chegada à hora do primeiro passo – mas os ponteiros preguiçosos mostram o contrário.

Estranham os colchões, incomodam-se com os beliches e com o frio úmido de uma Santana de Parnaíba que mora à beira do Tiete. Sentem-se desconfortáveis com o ambiente coletivo e a perda da privacidade – assim, antes mesmo de avistarem a primeira seta começa o aprendizado. Aquele monte de gente que se conheceu quando a lua iniciava sua jornada está ali, juntinho e grudado como arroz japonês.

O coletivo apresenta uma sinfonia de roncos, barulhos e sons tenebrosos.

Quando percebeu que dentro em pouco seria o fim da madrugada, levantou-se já vestido, esfregou os olhos, coçou a cabeça e em alto e bom som, disse baixinho para si mesmo:

__Não agüento mais, meus pés coçam para caminhar.

E saiu.

Fonte: Tribuna de São Pedro