Universo bípede
15 de maio de 2018
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O comprimento da saia

Certamente seria deselegante de minha parte escrever este artigo nos dias de hoje sem antes contextualizá-lo no tempo. É um episódio antigo – vivenciado no Caminho de Santiago em 1996. Portanto, segundo a aritmética das estações passaram-se 22 verões.

Faz parte da rotina peregrina a perseverança de dedicar-se ao impossível. A cada dia, deve pertencer uma vitória. Ao longo do percurso o universo vai justapondo em nosso caminho pessoas e situações como se fossem diferentes ciclos de nossas vidas. Intrusos do bem que não pedem licença para entrar, porque sem saber se encaixam em nossos desencaixes. Uma conversa incômoda, um silêncio de quem se julga dono da versão e não da história, um olhar catedrático, perdas e experiências vividas, alegrias em trânsito, dores distantes e distintas. Tudo apresentado em porções que aos poucos vão revelando os mistérios do caminho. Parece que surgem com o claro propósito de nos roubar o título de proprietários absolutos da verdade.

Como a vontade do eterno prevalece, mesmo babando de fadiga os passos nos conduzem ao albergue nosso de cada dia. Jornada longa – mutilados pelo silêncio e machucados pela tagarelice chegamos pendurados uns aos outros, como se tivéssemos todos uma só asa. Uma parte segue para o banho enquanto outros tomam a incumbência das compras para o regabofe. O combinado foi de pegarmos uma carona gastronômica nos dotes culinários de um “chef” peregrino – cujos fragmentos foram recolhidos ao cabo de uma subida aparentemente intransponível. Como recompensa e prova de gratidão, com ele trouxemos também a promessa que – se vivo chegasse – iria nos preparar um jantar longo e bem conversado.

Assim haveria de ser e assim foi.

Enquanto nosso chef empenhava-se em tornar realidade o compromisso juramentado, o peregrino de voz mansa e olhar sereno praticava um estranho revezamento. Ora conversando com uma parte, desde cedo apartada do grupo. Ora conversando com outro terço. O esquisito é que tinha um casal igualmente dividido. O marido ilhado em um grupo e ela habitando outra tribo.

O prelúdio atravessou o antepasto e chegou à sobremesa encerrando-se com sorrisos e desculpas de parte a parte, o que me obrigou a assoprar em seu ouvido qual o segredo do feito.

__Temos que caminhar semeando amor e colhendo aprendizados. Uma picuinha boba acabou sofisticando a simplicidade e gerando momentos de incompreensão. Finalmente baixou-se o decreto do bom senso e tudo ficou no passado.

__E como vc conseguiu harmonizar esta situação tão rapidamente – continuei.

__Não pude me alongar muito, porque a experiência mostra que o tempo e energia gastos na busca do entendimento devem ser como o comprimento da saia:

Nem curta demais que desvie a atenção – nem longa demais que cause desinteresse.

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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