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O coiso ta chegando

Peregrinar também nos oferece a possibilidade de conviver com pessoas e hábitos estranhos ao nosso cotidiano.

É aprender ou trocar informações sobre temas que muitas vezes desconhecemos.

Ter contato com diversas etnias, pessoas de diferentes culturas e religiões. Conhecer a diversidade culinária destes povos ou até mesmo a forma como se expressam os personagens deste nosso planetinha são experiências fantásticas.

Conviver com tantas diferenças é um grande e nem sempre fácil aprendizado.

Participar de um jantar comunitário no aconchegante albergue do casal Acacio e Orietta, no pequeno povoado em Villoria de Rioja, ainda na primeira metade do Caminho de Santiago é um destes exemplos da riqueza que a multiplicidade de hábitos, idiomas e costumes nos proporcionam.

Imagine um alemão sentado a sua direita, um casal de japoneses a sua frente – a sua esquerda um francês e um belga na cabeceira. No meio, dois ciclistas italianos conversando animadamente com uma canadense e na outra ponta um espanhol desdobrando-se para compreender o inglês do peregrino romeno.

Uma verdadeira salada universal, temperada com pitadas da ampla diversidade humana, mas altamente palatável.

Já neste nosso Caminho tupiniquim, temperado por um simpático sol verde amarelo, as brincadeiras e gozações são inevitáveis.

Imagine o caminhar diário com peregrinos paulistas e cariocas – assemelha-se as galhofas entre brasileiros e argentinos, ou uma versão civilizada dos cotejos entre palmeirenses e corintianos.

O pessoal do Norte e Nordeste, são exemplos de simpatia e descontração, alegram o grupo com suas divertidas expressões regionais, mas as atenções concentram-se mesmo nos trejeitos da linguagem de mineiros e gaúchos – haja paciência, tolerância e muita gargalhada.

Nossa peregrina, vinda do interior das Minas Gerais resolveu trazer o sobrinho e dois filhos, todos eles entre sete e nove anos de idade.
Muita coragem e uma pitadinha de insanidade mesmo!

Resolvido o tema da documentação e as autorizações para a viagem dos menores, nossa compatriota iniciou sua árdua empreitada.

A bordo de sua mineirice cultivada na pequena cidade de Recreio, interior das Minas Gerais, ao chegar à pousada conta-nos ela um pouco de sua aventura.

Entre um “cafézin” bem “quentin” relata-nos bem “baichin”, alguns detalhes de sua epopéia para chegar até Santana de Parnaíba.

Os três guris ansiosos e ensandecidos, saindo de férias – puro mix de gasolina e fósforo!

Exausta, nossa valente consegue chegar com os piás em São Paulo e segue para a estação Barra Funda, para pegar o trem com destino a Barueri e de lá para Santana de Parnaíba.

Enquanto aguarda o embarque, desdobra-se em cuidados com o inquieto trio:

__Muleque, chega pra cá e guarda este trem aí, sô!

__Guri, pega os trem do teu irmão e ajuda ele, uai.

__ Senta aí neste trem e sossega o facho, sô!

Dali a pouco o trem surge e ela esbaforida, diz num só fôlego:

__ Gente, junta todos os trem rápido, que o COISO tá chegando sô!

Então seja de carro, ônibus, avião, carona, trem ou coiso, não deixe de vir ao Caminho, uai.

É um trem danado de bão, sô!

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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