Depois de muitos dias caminhados e mais de quatro centenas de quilômetros pisados, o Caminho trouxe à lembrança os meus álbuns de figurinhas.

Tinham as repetidas, as difíceis, as carimbadas, a disputada rodinha para jogar abafa, a alegria de conquistar aquelas que faltavam e a ansiedade rosnando na garganta para completar cada página.

Em meus devaneios a lembrança desta litografia de almanaque – majestade absoluta dos meus tempos de calça curta – me fez ver que o futuro de hoje não é mais como o de antigamente – o face, o whats app e outras conectividades deste século roubaram a docilidade da calça curta, do jogar abafa, de empinar uma pipa, do jogo de sela e do futebol nosso de cada dia, que tomava das vias os carros e faziam surgir (agora pasmem!) campinhos de paralelepípedo.

Assim a cada página do Caminho eu seguia colecionando as mais variadas “figurinhas” – delas subtraindo importantes lições e aprendizados que haveria de colocar e carregar na mochila da minha vida.

Lá pela metade do álbum, cruza meu Caminho um peregrino muito alto, mas não magro – mochila e equipamentos estrangeiros, todos das mais tradicionais e mais caras marcas. Como a maioria dos gringos, loiro e portando dois stiks – ao invés do tradicional cajado. Sem sombra de dúvida um alemão – cochichei baixinho para minha mochila; Passos largos sumiu – como se não houvesse amanhã.

Horas depois, o encontrei sentado mastigando um sanduíche sei lá do que e tomando uma cervejinha. Como bom peregrino me convidou para descansar e ofereceu-me um naco do seu sanduba e um copo geladinho da cerveja mais gostosa que até hoje tomei.

Caracas! Como é bom esta tecnologia de primeiro mundo.

Para minha surpresa um alemão verde amarelo, ex presidente de uma enorme multinacional; Apaixonado por mulatas e pelo Brasil – de onde ao aposentar-se sacou uma para si embalando-a com uma aliança de brilhantes e felizes como crianças gastando pilhas de um brinquedo novo – mudaram para Frankfurt.

Para inaugurar vida nova e depurar seu passado buscou a magia e a solitude do Caminho

Com um português arrastado dividiu comigo o segredo do seu sucesso e também de sua frustração por não ter dedicado cem por cento do seu tempo aos interesses da Companhia.

Diante do meu olhar de surpresa escalou a parede de seu nirvana e lá do alto revelou seu segredo umbilical:

__Cinqüenta por cento do meu tempo – como presidente da Companhia – eu trabalhava e os outros cinqüenta por cento eu tinha que fazer política para me manter no cargo.

Ô Dilma,

Nem um, nem outro!

Fonte: Tribuna de São Pedro