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Melhor envelhecer

O início do Caminho é como abrir uma caixinha de surpresas, ou até mesmo carregar um balde para purgar angustias. Fica no ar uma ansiedade guardada, uma insegurança manifesta, um frio na barriga e uma dúvida latente: vou conseguir?

Nos primeiros 20 km acionou o gatilho do “passo rápido” com a certeza errada que ao percorrer uma etapa em menos tempo, caminharia o mesmo número de quilômetros economizando algumas horas. Portanto, uma dose menor de sofrimento (sic!); Construiu com argila nauseabunda uma verdade mentirosa – ponte fictícia para projetar sua hipotética superioridade em relação aos demais – afinal quando os demais chegassem – imaginava – estaria de banho tomado e muito provavelmente sorvendo um gelado mix de esmalte de cevada e lúpulo – quem sabe até a beira da piscina!

Ao cabo do km 40 – ao sair do banho – deu de cara com parte do grupo aliviando o corpo suado das mochilas e confraternizando-se com o hospitaleiro.

A partir do km 60 – as dores musculares e as bolhas reduziram seu ritmo – não conseguia acompanhar os passos do grupo. Ao chegar à pousada encontrava meia porção de caminhantes de banho tomado. Outro tanto saboreando os escritos da biblioteca e alguns sentados à mesa com faca e garfo para esquadrinhar o bife ou furar o ovo – contemplando o amarelo da gema cobrir a branca porção de arroz – leal e fiel companheiro do feijão nosso de cada dia.

Do km100 em diante – chegava tarde, já com o sol às costas. Sorria um sorriso amarelo e dolorido. Desvestia a mochila, descalçava os sapatos, abandonava o corpo em cima do chão gelado e confortável. Um dia hesitou entre o deleite de uma chuveirada ou morrer ali mesmo. Refestelou-se com baldes de água acariciando toda a extensão do seu dolorido e cansado corpo. Pediu bis – ganhou mais, muito mais e mais do mesmo até o coração lhe enviar um whatsapp avisando que estava tudo bem. Sentiu a força do sangue irrigando suas veias. Inerte assistiu a aflição e a ansiedade de seus pulmões empenhados em oxigenar o cérebro para remover a espessa camada de inconsciência, e a enorme dose de teimosia para superar a si mesmo.

As bolhas e o stress muscular o obrigaram a calçar a sandália da humildade – a respeitar seus limites. Não com facilidade aceitou os conselhos e as intermitentes doses de insistência ministradas pelo caminhante mais experiente do grupo, já experimentado em caminhadas de longa distância. Como se fosse um gesto lúdico tomou posse de seu corpo desengonçado e como subproduto biológico de um pálido processo cerebral ocupou todo o perímetro do banco do passageiro. Para homenagear a lucidez e o bom senso, não por acaso, neste dia optou por não caminhar.
Passou o sol e veio a lua. Com ela o jantar comunitário e a longa “hora da verdade” ou “sessão descarrego” – momento de encarar seus monstros e suas sombras – e não tem como escapar deste espelho cruel. Conduzida por nosso hospitaleiro mor – que entre tantas outras atividades voluntárias obrigou-se a acolhê-los de uma forma carinhosa e muito especial. Ao final da sessão juntou os retalhos imateriais esparramados pelo albergue – mosteiro peregrino e solitário perdido no meio do canavial e manquitolando saiu porta afora para caçar estrelas e ruminar a bílis.

Ao voltar dirigiu-se ao peregrino mais velho e sob a couraça protetora de quem ainda não chegou aos 40 perguntou:

__O senhor deve ter mais que o dobro da minha idade, não tem medo de morrer de tanto caminhar?

Do alto de uma enorme montanha de anos, ele respondeu:

__A idade me ensinou a fugir destas emboscadas mentais. Entendo que o melhor é envelhecer, pois a alternativa a ela é muito pior.

Portanto minha opção é viver – mesmo envelhecendo a cada minuto!

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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