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Longínquas jornadas

Faz parte da rotina do peregrino explicar, ou melhor – tentar explicar o que o move e principalmente o que o leva a deixar o conforto de casa e o aconchego da família, para sair caminhando mundo afora levando uma vida simples – espartana – privado da sua privacidade, dormindo em beliches, lavando sua própria roupa, fazendo refeições comunitárias, curando as bolhas dos pés e as feridas da alma. E o mais esquisito, caminhar remedando o caracol – que carrega sua casa nas costas.

Afirmações para elucidar este mistério ou mesmo incentivos ao avesso estão sempre presentes antes da partida:

__Olha, se você não conseguir não tenha vergonha de voltar.

Pequenas pérolas, mais ou menos assim:

__Você esta fazendo voto de pobreza?

Ou uma pergunta quase afirmativa:

__É promessa?

Porém ao voltar, o mais difícil – eu diria “impossível” – é a árdua tarefa de relatar as experiências e os aprendizados, agora acrescentados às suas vidas.

Como explicar ao incrédulo ouvinte, que depois de assoprar quase sessenta velinhas – ser usuário freqüente de salas “VIP” – que além de referendarem seu status social – são penduricalhos que ornamentam a arquitetura de importantes aeroportos ao redor do mundo – afirmar que existe vida além de uma confortável poltrona de couro legítimo, de ambientes climatizados e que praticar o desapego e não temer a simplicidade lhe permitiu vivenciar a tão propalada “leveza do ser”.

Ou aos quarenta e poucos – revelar ao companheiro (a), a alegria e o sentimento de plenitude ao ser recebido (a) – por alguém que jamais viu na vida, com um forte e iluminado (iluminado?) abraço, acompanhado por um sorriso rasgado no peito e uma surpreendente e muito bem vinda gela goela!

Como um jovem com pouco mais de vinte anos, justificaria aos seus amigos a euforia de um choro chorado – esquisito – quando descobriu o valor de um simples copo d água?

Como alguém – considerado normal – reagiria ao ouvir a jovem senhora- recém chegada de sua aventura – colecionadora e proprietária de quase uma centena de finos pares de sapatos, afirmar que iria desfazer-se de quase todos, inclusive os alojados em suas caixas, desde que saíram das lojas e sequer conheciam o lado de fora da sapateira.

E boquiaberto testemunhar sua alegria ao exibir seu novo par de – tênis?

Lá atrás Herman Hesse, em seu livro “Viagem ao Oriente” abordou este tema, assim definindo o sentimento peregrino:

“… Quem empreender longínquas jornadas verá muitas coisas distantes daquilo que considera verdade e chegando a casa, ao relatá-las será muitas vezes desacreditado, pois os emperdenidos não acreditarão naquilo que não vêem ou sentem de forma distinta”.

Pois é – a estranheza com este povo viciado em dar muitos passos vem de longe – muito longe!

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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