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Liderança adaptativa

Antes de botar os pés no Caminho de Santiago – para mim – mochila, cajado, simplicidade, humildade e fraternidade pertenciam a um mundo invisível e alegórico – pura metáfora de um realismo com paisagens abstratas.

Como um marginal desta sociedade cósmica, antes das 8:00 da manhã dando um passo de cada vez deixei a pequenina e graciosa Saint Jean de Pie de Port para trás, como se fosse uma enciclopédia do passado.

Em meio à forte neblina, vestido nesta mísera carne e tremendo de frio iniciava ali minha marcha que terminaria em Santiago de Compostela – cerca de 800 km – muito além do limite da razoabilidade.

A insanidade abrangia uma vasta superfície do meu cérebro – os Pirineus debruçavam-se sobre mim, com seus imensos braços brancos cobertos de neve, como se fosse um dragão do nada vindo para me esmagar com as garras vingativas do medo e da insegurança.

Às vezes me alugo para sonhar – abandonei minha carcaça e só percebi quando faltava o ar – as pernas fraquejavam e as alças da mochila deixavam um dolorido recado em meus ombros.

Uma fraqueza e um suor frio de fome foram afastando a abastança do orgulho e faziam aflorar a debilidade de minha alma – quase morto – sentei!

Meu caminho termina aqui! – uma frustrante degustação de 6 horas – Pirineus acima.

Eu que tinha um excelente preparo físico – estava desnudo em meu preparo mental – me dei conta que presunção é uma qualidade exclusiva dos incompetentes e que perseverança é uma longa jornada.

Quatro peregrinos viram a brancura de minha pele e a precariedade do meu ser – pararam e comigo dividiram seus sanduíches de patê, queijo suíço e um insuperável presunto pata negra – frutas secas e um gole do bom vinho espanhol – um rega bofe que faria Babette morrer de inveja.

Incorporei-me ao grupo e por seis dias caminhamos juntos – a cada fraquejo ou insegurança recebia cargas de incentivo, largas doses de otimismo, planejamento e determinação.

Ao nos despedirmos, um deles explicou que eram executivos e estavam recebendo um treinamento sobre Liderança Adaptativa.

__O Caminho lhe permitiu vivenciar estes dias a filosofia e os conceitos sobre a “prática de mobilizar pessoas para enfrentar problemas de difícil solução e superá-los.

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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