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A idealização do Caminho do Sol

Em 1996, o empresário paulistano José Palma realizou pela primeira vez o Caminho de Santiago, na Espanha. Sempre com a agenda lotada, Palma administrava três empresas ao mesmo tempo. Voltou da viagem convicto da influência que o caminho exerceu sobre a sua vida.

– A primeira coisa que fiz foi “aliviar a minha mochila”, que estava muito pesada. Trabalhava que nem um louco. A lição que eu tive foi trocar quantidade por qualidade. Fiquei apenas com uma empresa, que me bastava para viver. Mas não foi do dia para a noite. Claro que isso exigiu muito tempo.

Entre as mudanças que o caminho provocou em seu modo de ser, Palma conta que sentiu necessidade de fazer algo em prol de seus semelhantes. Trouxe da Espanha a ideia de criar, no Brasil, um ambiente para pessoas que pretendiam realiza a rota espanhola e para que as que já a fizeram a oportunidade de reviver a experiência.

– Queria fazer um Caminho para que as pessoas adquirissem um pouco de intimidade com a mochila e com o estresse muscular. Para conhecerem o que é caminho oito horas por dia e aprender a lidar com as bolhas, a conviver com a rotina de dormir em comunidade e com a perda de privacidade.

Recém-separado, Palma deixou São Paulo e foi morar na região de Águas de São Pedro. A visão do verde e das montanhas que tem de sua casa, situada na parte alta do município de São Pedro, lembra a Galiza.

A semelhança topográfica colaborou para concretizar a idéia. Além do que, o aniversário de Águas de São Pedro é no dia Santiago, 25 de julho. Palma discutiu o assunto com o prefeito  de Águas, Luiz Anônio de Mitry Filho.

O primeiro passo foi fotografar a cidade e o mini-horto, possível local de chegada. Levou o projeto ao Congresso Internacional de Peregrinos, realizado no ano de 2001, em Fortaleza. Nesse congresso estava presente o hospitaleiro espanhol, Jesus Jato, que Palame conheceu na primeira viagem a Santiago de Compostela. Jato se interessou pela proposta e assumiu o compromisso de ceder, da Espanha, a imagem de Santiago.

De Fortaleza, Palma ligou para o o prefeito de Águas e confirmou a aceitação do projeto. De lá, solicitou a organização do lançamento da pedra fundamental e de sua divulgação na imprensa.

Em primeiro de dezembro de 2001, a cerimônia do lançamento da pedra fundamental, realizada no mini-horto, contou com a presença de vários convidados, entre eles Jesus Jato, o hospitaleiro espanhol. Naquele dia, Palma se comprometeu a chegar com a imagem e com o Caminho pronto, no prazo de seis meses. A única certeza que tinha era o local da chegada: o mini-horto da cidade, que recebera o nome de Casa de Santiago.

No mesmo dia, o Presidente da Câmara de Salto, Geraldo Garcia, propôs apresentá-los para pessoas da cidade de Santana de Paraníba, ligadas a história, cultura e preservação da memória. Esse seria o local ideal para o início do Caminho, pois iria fugir das marginais, das rodovias e das avenidas.

Em fevereiro de 2002, os locais de chegada e saída já estavam definidos. Faltava desenvolver os restante do trajeto. Palma contou com a colaboração de Sergio cieto, direto da CATI, órgão estadual que dá apoio aos pequenos e médios agricultores. Cieto conhecia os fazendeiros de toda região. No entando, Palma tinha duas exigências: que o caminho tivesse somente áreas rurais e que o percurso diário fosse de, no máximo, 25 quilômetros. Para criar o Caminho, ele realizou várias vezes o trajeto de carro, de fevereiro a maio, definindo o percurso e as pousadas.

Em princípio, a maior preocupação do idealizador era como alimentar nas pousadas o espírito de fraternidade e recepção, consagrado há mais de mil anos na Espanha. Com a ajuda do padre Ronan Avino, de Águas de São Pedro, Palma explicou para os proprietários das pousadas como era isso na Espanha, quem foi Santiago e o que é peregrinação.

As pousadas, até então, não tinham conhecimento sobre como lidar com as necessidades dos peregrinos. No contato, Palma esclareceu aos proprietários quais seriam: banho quente, um abrigo para dormir e um colchão.

Acompanhado do deficiente visual, Gilmar Soares Pinheiro e do padre Ronan, o empresário foi à Espanha buscar a imagem de Santiago. Na Embaixada, algumas dificuldades burocráticas atrasaram a liberação da imagem.

Trajeto definido, pousadas acertadas, imagem no Brasil. No dia 15 de julho de 2020, o primeiro grupo de peregrinos saiu de Santana de Parnaíba com o propósito de chegar em Águas de São Pedro no aniversário de SAntiago, 25 de julho.

Devido à dificuldade de se criari um trajeto rural, os dois primeiros dias do percurso foram cumpridos em áreas urbanas.

__ No entando, acabou tendo um significado importante. Caminhar à margem do rio Tietê causa uma reflexão no ser humano, para que veja o que fez com a natureza. É a reflexão sobre o progresso a qualquer custo.

O Caminho do Sol percorre 13 municípios do interior paulista: Santana do Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Cabreúva, Itú, Salto, Indaiatuba, Elias Fausto, Capivari, Mombuca, Saltinho, Piracicaba, Águas de São Pedro e São Pedro. São 241 quilômetros de distância, em 11 dias, envolvendo 11 pousadas.

A infra-estrutura é outra preocupação.

__ Em uma caminhada de 11 dias, você tem que ter um bom planejamento. Não dá para sair ai correndo o risco de ser assaltado ou atropelado.

Em razão do sucesso da ideia, o Caminho do Sol se transformou em empresa e os custos se expandiram: aluguel de escritório, contabilidade, nota fiscal, contratação de funcionários, manutenção de site, despesas com contas telefônicas.

Para suprir esses custos, Palma diz ser necessário cobrar tava de inscrição do peregino.

__ No início tive que injetar muito dinheiro. O Caminho ainda é deficitário. Gasto com ele, mas gasto menos.

O Caminho do Sol não gera custos ou preocupações apenas. Gera também apoio a dois projetos sociais. A doação de alimentos foi sugeridas por Bryan Guimaraes, um jovem peregrino. cada caminhante entrega dois quilos no início do trajeto. O alimento é repassado para oa padres que distribuem nas comunidades ou é doado para o fundo de assistência social das prefeituras.

O outro projeto é o da participação de deficientes visuais. Foi sugerido por Acácio da Paz, peregrino que mora na Espanha.

Onze Dias
Onze Dias
Onze Dias pelo Caminho do Sol. 241 quilômetros entre Santana do Parnaíba e Águas de São Pedro, no interior de São Paulo. A viagem de três amigos pelo Caminho do Sol deu origem a uma plataforma multimídia estruturada inicialmente na internet, com site e redes sociais, que contará com a publicação de um livro detalhando a peregrinação e servindo de inspiração e guia para pessoas que pretendam percorrer o Caminho do Sol.

1 Comentário

  1. […] Dentre as histórias, encontro o relato de José Palma, “Com os Pés e a Alma” onde ele descreve sua peregrinação a Santiago de Compostela e a idealização do Caminho do Sol. […]

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