São muitos os motivos que atraem as pessoas para dar este mergulho agarrados ao escuro do não saber.

As surpresas ocorrem durante as Palestras Orientativas – obrigatoriedade que antecede as inscrições – quando os futuros peregrinos são informados que o caminho não emagrece.

Caramba! vou caminhar mais de oito horas por dia e não vou emagrecer nadinha? – ecoa com frequência a pergunta que persiste em existir.

Não, não vai emagrecer – porque durante a jornada come-se muito bem – precedendo a variedade de compotas você irá experimentar aquela comidinha caseira – preparada em fogão à lenha – explica o peregrino/voluntário/palestrante.

Outro susto enorme ocorre quando são informados sobre a “perda da privacidade”. Sim, o albergue não tem apartamentos – a convivência é coletiva e até o pensamento transforma-se em um espaço público – e aí reside um dos maiores aprendizados do Caminho – a descoberta que somos seres humanos!

Para finalizar ficam sabendo que as pousadas são extremamente simples – muitas só abrem a porteira de suas propriedades para nos receber.

Vocês correm o risco de sentir os problemas escorrerem pelo ralo – caso a resistência do chuveiro queime – as pousadas não possuem funcionários para reparos e manutenção.

Cientes de todos os detalhes – felizmente a grande maioria desiste na palestra. Portanto – quem vem ao Caminho sabe que terá duras sessões de fisioterapia para os sentimentos e deverá enfrentar uma reabilitação de personalidade ao longo destes inexplicáveis onze dias.

Ao longo da caminhada surgem fadas e dragões – e como se a gravidade fosse embora a mente é inundada com fragmentos e sinecuras – até então impensáveis.

Autoconhecimento, contato com a natureza, momentos de reflexão e introspecção, o despertar da fé, verdades, mentiras, sonhos e pesadelos permitem que o coração volte menos duro e a alma mais leve.

Durante a cerimônia, o marido pede para usar a palavra.

__Quero aqui agradecer o alívio financeiro que este Caminho me proporcionou – não agüentava mais a pressão da minha mulher para reformar a cozinha e os banheiros de casa.
Depois de muita conversa decidimos então por fazer a reforma. Porém – confesso – estava me dedicando ao impossível. O custo da reforma era uma galáxia distante da minha realidade. Então pedi que viesse ao Caminho para que eu pudesse aferir a mola da necessidade e o freio do desejo.

Depois de alguns dias ela me ligou e disse:

__Benhê, esquece a reforma – nossa casa é maravilhosa – a cozinha é fantástica e os banheiros são perfeitos.

Fonte: Tribuna de São Pedro