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Eu não minto

Caminhamos juntos e convivemos por mais de 70 horas intercaladas com almoços breves e demorados jantares, sempre acompanhados por um bom vinho nacional – afinal estávamos cruzando todo o norte da Espanha, desde Saint Jean de Pie de Port – divisa entre a França e a Espanha – encravada aos pés dos Pirineus.

É muito bom encontrar conterrâneos em terra estranha – lembrar com saudades do arroz com feijão, da tapioca, do pão de queijo e de outras tantas características verde amarelas, curtindo os diferentes sotaques desta heterogênea e tão cantada brasilidade.

O mineiro rebento da pequena e desconhecida Recreio – seguindo a tradição – vez por outra balbuciava um “uai” ou um “trem danado”.

O que praticava mesmo era a audição. E como!

Já o carioca tomou a palavra e fez dela sua inseparável companheira. Era quase impossível decifrar tudo o que falava. Na ânsia de destilar grossas fatias do pesado limbo que trazia em sua alma, delas fazia uma fria sopa de letrinhas desencaixadas e nos enfiava ouvido abaixo.

Engraçado as características e o comportamento humano em situações desumanas – para alguns o sal é doce, o alto é baixo, subida e descida são iguais, o que muda é a mão.

Para outros o preto é mais preto, a alegria mais alegre e a dor mais doída.

Também tem aqueles que não percebem cores, sabores ou sentimentos – tudo é pálido – quase sem hemoglobina – uma anemia branca e paralisante.

Mas cada gesto, cada silêncio ou a falta dele pode proporcionar um aprendizado – imperceptível difícil de entender e complicado de digerir – na verdade uma longa lição de casa.

Ao nos despedirmos, a cereja que o carioca colocou no topo do bolo foi digna de um membro honorário da galeria dos modestos.

Ao longo destes dias – disse ele – enquanto eu falava, muitas vezes pude observar vocês dois.

_ Pois saibam que eu não minto. Eu invento verdades.

E cada um seguiu seu Caminho.

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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