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Cuide de seu futuro

O jantar já estava comido, o grupo era uma mescla de seres humanos maduramente graves e senhoras juvenilmente graciosas.

Findo o rega-bofe os peregrinos cansados da jornada curtem uma saudável monotonia alimentada com conversas que podem cotejar desde o tratado científico sobre a criação de carneiros, discussões sobre as vertigens causadas pelas crises do mundo, a arquitetura das galáxias, a operação lava jato, conselhos para cuidar das bolhas, temas corporativos, assuntos familiares, dicas literárias e tudo mais que a inteligência, cultura e curiosidades que um intruso eivado de conhecimentos e verdades entenda como sendo o tema da hora.

Momentos preciosos para uma troca com troco – verdadeiro aprendizado para quem tiver ouvidos para ouvir.

As atenções são sempre voltadas ao orador da vez – sorrisos leves que no máximo movem dois ou três músculos alternam-se com largas gargalhadas, ou silêncio absoluto.

A atenção cede vez aos arroubos oratórios – ora frios como um diagnóstico, ora eloqüentes, ou com rasgos de uma emoção incontida.

Nosso peregrino ainda guarda o magnetismo do velho Frank – quando nos brinda com “New York” e o romantismo de Julio Iglesias – quando interpreta “Às vezes si, às vezes no”.

Curtido pelas aventuras de uma vida de muitos amores, sucessos e fracassos conta-nos seu despertar.

Vítima de um tsunami na Bolsa de Valores dormiu rico e acordou pobre – muito pobre – com poucos zeros a esquerda da vírgula.

Uma dura realidade para quem estava acostumado com os carinhos da fartura e os afagos da vaidade.

No balanço final restou-lhe um pequeno apartamento e alguns milhares de cruzeiros.

Contou e recontou as reservas – conseguiria viver dez meses – talvez um ano – à pergunta se deveria ir ou não, respondeu sem responder.

Comprou sua passagem para a Espanha e seguiu para o Caminho de Santiago.

Sem entender “o que” e o “por que” – lá estava ele dando passos de cajado na mão e mochila nas costas – uma diferença de Paris a Mombuca.

Gente estranha, lugares esquisitos – lembrou de Eduardo & Mônica.

Passam os passos – segue uma rotina cada vez mais desigual!

Aquela gente estranha torna-se íntima – aqueles lugares esquisitos são mágicos – começam os aprendizados!

Conhece Hans – peregrino alemão – companheiro de jornada, além de caminhante experiente passa a exercer o papel de seu coaching de vida.

Mesclam-se culturas, qualidades, defeitos e hábitos iguais como a água e o vinho, o branco e o preto, o certo e o avesso.
Aulas de poupança, valores morais, conceitos, doutrinas de fé e família.

Percebe nosso peregrino o quanto estava distante das setas amarelas.

Volta para casa ruminando a frase do amigo – agora irmão – ao despedirem-se com o abraço final:

__Cuide muito bem de seu futuro, porque é lá que você vai morar.

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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