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Caro data vermibus

Nestes vinte anos de passos dados – este velho par de ouvidos tem escutado muitas estórias, contos e causos – fertilizantes poderosos para avigorar esta imensa, verde e próspera plantação de abobrinhas peregrinas.

Presenciei caminhos com fortes respingos de uma mágoa despercebida e uma tristura quase sempre invisível, tendo por testemunha um olhar doído e lágrimas incontidas. Entre curvas e subidas acompanhei muitos sorrisos lhanos e gargalhadas incoerentes. Também recebemos inúmeras classes ao ar livre abordando temas culturais, históricos, geográficos, de física, (esta com aulas práticas), gastronomia (e suas conseqüências), iniciação à leitura do céu, noções sobre a língua brasileira (nomenclatura creditada a Sergio Rodrigues – escritor, crítico literário e jornalista), mineirês, nordestinês, caipirês e muitas outras “ês”.

Uma fartura multidisciplinar ininterrupta para que nossa horta possa crescer e manter-se sempre verdejante – vez por outra, abençoada com providenciais pitadas de educação moral e cívica, aulas de canto – com prática de solfejo – como empinar uma pipa sem vento, surpreendentes técnicas para jogar pião sem a cordinha, e os efeitos do vento noroeste sobre a trajetória da bolinha de gude.

Enfim, um compacto mestrado sobre “como ser feliz comigo mesmo”.

Lembro de inúmeras desconstruções ocorridas em meus caminhos e dos relatos que ouço em meu cotidiano peregrino.

Um deles – alto executivo – de bom falar e hábitos finos, ao que parece usava água Perrier até para tomar banho.

Sob o sol do meio dia viu-se em pleno canavial sem uma gota de água.

Com a garganta queimando pela secura vestiu a “sandália da humildade”- alcançou a surrada garrafa com água quente e já bebida – que um exausto e suado cortador de cana lhe ofereceu – certamente até hoje não acredita ter ganhado duas notas de R$100,00 – provavelmente ainda parafusadas embaixo de seu colchão – por abrir mão de providencial fatia de sua fortuna engarrafada.

Para nosso peregrino, uma vivência da mais pura e fraterna demonstração de solidariedade – que a partir daquele instante jurou para si mesmo multiplicar e redistribuir.

A noite, à bordo de uma bermuda florida e bem larga pediu licença para brindar à vida – à vida peregrina.

Disse ele que sozinho, plantado no meio de um deserto de cana cortada sentiu na alma e no ânimo os efeitos da overdose de sol e de seca enxergou-se como o próprio “caro data vermibus”

Explicando que “caro data vermibus” significa “carne dada aos vermes” cujas iniciais deram origem a palavra “cadáver”.

Pela manhã tomou seu café e seguiu para mais uma etapa deixando para traz um solo marcado por seu aprendizado – mais adiante ao passar pelo cemitério da cidade sentiu um forte arrepio cortar seu corpo, engoliu seco e seguiu pisando o horizonte.

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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