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Caminho antropométrico

Quando o caminho da vida se apresentava sereno e parecia tornar-se um tapete a seus pés sugerindo um andar gentil e airoso que o fazia sentir-se como o rei dos salões – um sacode repentino lhe trazia o queixo ao chão.

Não fora apenas uma ou duas vezes que o assomo da faceirice abruptamente lhe alterava o semblante e o fazia morder a ponta do bigode trazendo à tona a aguda dor do primor que foge às mãos, quando o inusitado castra a expectativa do êxito.

Vestindo um ressaibo de melancolia mesclado com um tanto de interrogações, veio ao Caminho destilar as decepções que enfraqueceram as estruturas da represa que acastelava suas esperanças.

Dizia ser ético, profissional, dedicado, assim como o cajado que o apoiava, sua vida era retilínea – e na mochila da vida sempre guardava grandes trouxas de perseverança e determinação.

Por que então o sucesso não lhe vinha às vistas?

Por que o céu azul com suas almofadas brancas, ao piscar dos olhos acolhia a tormenta que lhe turvava a vista e lhe roubava o norte da glória?

Por que as setas da vida negavam as setas do Caminho?

Até quando e por que, sua resiliencia seria submetida a testes intransponíveis para que pudesse superá-los sorrindo como se a dor do insucesso não o alcançasse?

Trajando seu disfarce peregrino seguia destilando a veemência de sua decrepitude e ruminando perguntas sem respostas, saturado por amarguras encarquilhadas no templo de suas crendices e devaneios.

Assim como na vida, subiu muitas subidas e desceu inúmeras descidas.

Venceu todos os quilômetros, mas não venceu todas as incertezas.

Achou o caminho, mas não encontrou as respostas.

Purgou a culpa, mas não se viu inocente – percebeu que era ele mesmo o autêntico procurador de tantos “nãos”.

Concluiu que a balança da sua vida estava descalibrada e necessitava urgentemente de uma boa e salutar aferição antropométrica – seguiu rezando e repetindo para si mesmo a oração do “Confiteor”:

“Mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa”

Olhou no espelho e não se viu.

Olhou para dentro de si mesmo e se perdeu.

Olhou em volta e não viu nada.

Olhou a seta amarela lhe indicando um novo caminho.

Percebeu a presença de Deus.

Caminhar é preciso… seguiu!

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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