Calçando a diminuta armadura de senhor da razão e controlador geral do universo, queria tomar conta de tudo e de todos.

Se alguém caminhasse de forma um pouco mais lenta receberia dele um manual de: “como vencer o vento”.

Com a mesma deselegância – se alguém caminhasse muito rápido receberia um exemplar do livro: “caminhando com Rubens Barrichello”.

Num gesto de eloquente preciosismo chegou a ajeitar o boné na cabeça de um companheiro enquanto fazia um discurso sobre o ângulo correto que a aba deve ter em relação à face, para permitir uma ampla proteção dos raios infravermelhos. Orientação – diga-se de passagem, vitaminada com a dica de como calcular o ajuste do fecho que prende o dito cujo à cabeça, evitando uma possível pressão craniana e a possibilidade de uma forte encefaléia!

Durante as refeições trazia à mesa verdadeiros tratados sobre alimentos saudáveis, como prepará-los e qual a melhor forma de misturá-los.

Propriedades do orégano no combate ao colesterol, como substituir a manteiga por azeite morno e outras orientações foram temas recorrentes nas múltiplas informações para reeducação alimentar.

Tudo muito útil – o problema estava na frequência, no formato e na ocasião das intervenções.

Um dia em meio ao percurso sentou-se à beira de uma represa para conversar consigo mesmo. Enquanto suicidava os mosquitos que lhe estorvavam o duro diálogo, lhe veio à mente que era chegada à hora de deter esta pesada herança.

Percebeu que à revelia de sua fala, o mundo seguia de forma inexorável – o farol abria, o correio cometia enganos e a banana amadurecia.

De que lhe servia este leito de agulhas quentes. Qual o mérito em controlar tudo e todos, a todo instante?

Uma enfermidade passível de estancar. A partir daquele momento tomou para si, a sábia decisão de “ignorar”.

Simplesmente ignorar e não chamar para si a carga da mochila alheia.

Fonte: Tribuna de São Pedro