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Animus Diffamandi

Caminhar por muitos dias subindo e descendo morros, deixando as pegadas na terra, sentindo o desconforto do chão duro e irregular como a vida – chafurdando os pés no barro, mastigando poeira, ardendo sob um sol que insiste em comparecer, ou sob uma chuva que molha o campo e gela o esqueleto.

Ouvidos in natura – desprotegidos, inocentes, expostos ao vento para sorver o que vier como vier e quando vier. Língua incontida que às vezes não cabe na boca e acaba por borrifar palavras fortuitas e acidentais.

Falar e ouvir!  Não necessàriamente nesta ordem – é como água – temos que nos empapuçar para conseguir sobreviver às agruras e ternuras que catamos pela estrada.

E nesta alternância passam – se minutos, horas e quilômetros. Fala-se muito, ouve-se pouco ou vice versa.

Contos, causos, fatos, vida vivida, problemas, filosofia, alegria e lamentos, lucros e perdas, temas pertinentes, chistes e chacotas – pertencem ao mix que carregamos na mochila da vida, que vomitamos ou somos vomitados.

À noite depois do jantar, a tradição peregrina faz comparecer uma rodada de conversa, ora “fiada”, ora “afiada” – com direito a muitas palavras para fazer um resumo do dia, ou arquitetar prognósticos insondáveis para o amanhã – meio que uma transição para aguardar o sono que vem pesado.

Repousa o sol, acorda a lua e tem quem observe tudo. O sono que ronca um dito mal dito, um dito bem dito, um xixi que escapa pelo beliche, uma roubadinha na carona do trator, ou qualquer ato falho – tudo é motivo para o escárnio pós jantar ou pré dormir.

Sempre o mais sisudo, o que chega primeiro, o que chega por último, o que come muito, o sotaque forte do sul, do centro ou do norte, histórias e causos duvidosos ou suspeitos, aleatoriamente conforme o vento ou a influência da latitude e da longitude acabam influenciando o algoz para escalar a vítima da vez.

Desta feita o apontado era pontual, noite após noite era ele o eleito – o predileto eleito por unanimidade.

Invencionices para ouvir seus resmungos e vê-lo justificar o abstrato que envolve a broma (palavra de origem espanhola que significa brincadeira), dita com olhar profundo e ares de bons ares.

Caminho adentro muitas noites depois vem o impropério de seu desabafo:

__O que estão fazendo comigo é “animus diffamandi”  (pura intenção de difamar),  e sem conseguir guardar o semblante vermelho e aperreado, finalizou:

__Não tem problema, eu não me importo. E foi dormir!

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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