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A vigorexia e o sibito

Com a certeza que “se der certo não tem como dar errado” – cumpriram fielmente o script que inaugura o princípio da jornada e antecede o primeiro passo.

Substituindo a ansiedade pelo açúcar, juntou à grossa fatia do bolo um robusto naco de goiabada e inundou a caneca de leite com uma colher do mais puro mel de laranjeira.

Um outro de tão afobado, melecou o pão e a mão com manteiga mole; abraçou a xícara – deu um gole cumprido; queimou a língua e quase sentiu o gosto do café.

Paladares e sabores variados abocanhavam desde um queijo quente, um ovo mexido com tomate, uma banana com aveia, até um punhado de pinhão cozido na chapa do fogão a lenha.

Com um dedal de paciência foram aos poucos se ajeitando para a foto oficial do grupo à porta da pousada – tombada pelo CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico órgão subordinado à Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo.

Na sequência foram servidos sorrisos congelados para emoldurar o “marco zero” e eternizar o prelúdio de um profundo mergulho porque: “caminhar é sair em busca de um talvez”.

De longe o grupo parecia uma carreira de formiguinhas caminhando em fila indiana, mas aos poucos foi se deformando até se transmutar em um arquipélago com ilhas de diferentes tamanhos, e formatos esparramados ao longo de uma estrada fétida, contaminada pelo mau cheiro de um rio doente – internado na U.T.I. do universo – acometido por elevado grau de poluição – uma infecção generalizada; mazela de um país que por muitas décadas descuidou da legislação de proteção ao meio ambiente e não criou uma política para prevenir e combater seus efeitos.

A topografia do percurso pode ser comparada às oscilações do destino; surfar nesta onda significa entender que “aprender é mudar posturas” e que “a necessidade é a mãe da criatividade” – muita coisa para um primeiro dia – onde a vontade de chegar é uma atividade elétrica que comanda o substrato neuroatômico – modelo quântico da consciência.

Na subida do “cala a boca” repensam o conceito que “tudo que ilude encanta” – ensaiam um sorriso amarelo ao lerem a placa com a frase de Don Bosco: “Eu não disse que seria fácil, eu disse que seria possível”.

Alcoviteira – a certeza abandona a carapuça da dúvida e anuncia que nem sempre irão colher “bagas doces” – é chegada a hora de domar o corpo, expurgar as impurezas da mente e tonificar a fé.

Travando uma dura batalha épica e lipofóbica chegam à pousada. Cansados, com dores até nos músculos da língua – hesitam entre o banho, a cama e o prato.

Entre os que optaram pelo prato estava uma vítima da vigorexia; frequentador diário e cliente modelo da sua academia. Ao entrar no refeitório ficou admirado ao ver aquele caminhante sibito (pessoa muito magra e pernas finas) portando ares de quem veio flutuando; banho tomado, barba feita, careca brilhando, portador de um sorriso fácil – trazia consigo a expressão de um religioso rubicundo – dizimando com uma cadência milimétrica o que minutos antes, eram duas redondas e coloridas bolas de sorvete.

__Não se assustem – disse ele – cheguei antes porque o vento estava a favor.

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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