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A senhora e a soberba

Um episódio bastante empoeirado e carcomido pelo tempo. O telegrama que recebo do meu inventário temporal informa que lá se vão pouco mais de duas décadas. Uma pilha de anos cujo registro parcial está em folhas já amareladas exige que a memória mofada se espreguice, e vá escarafunchar os arquivos das lembranças acumuladas pelas subidas e descidas que o caminhar pela vida nos impõe.

Caminho de Santiago – eu estava entre o décimo quinto e o décimo sexto dia de caminhada – ainda tinha muito a aprender. Havia passado por duas situações que testaram minha vaidade – companheirona de vida e, por conseguinte de caminho.

A primeira foi me deparar com o albergue inicial em Saint Jean.

Uma casa antiga e mal conservada; quartos e beliches cheirando a mofo. Minha primeira reação foi dar meia volta e buscar um hotel; ímpeto refreado nos primeiros cinco minutos de reflexão; afinal minha proposta era realizar este sonho, e agora era chegada a hora de promovê-lo ao status de realidade. Ajeitei minhas tralhas na parte inferior do beliche e dediquei os minutos seguintes a uma verificação mais detalhada das instalações – pânico ao entrar no banheiro!

O segundo foi punk! Tarde da noite, uma garoa fria e teimosa trouxe de longe e despejou no albergue um cachorro acompanhado por um francês que se acomodou no beliche ao lado; o cachorro – todo molhado – deitou-se no chão do corredor que separava nossos beliches – algo em torno de meio metro. Não sabia quem fedia mais – ele ou o cachorro. Banho – nem pensar!  A água quente tinha acabado às cinco da tarde, quando o primeiro peregrino que tomou banho fechou a torneira, embrulhou-se na toalha, tomou posse de um cotonete e saiu cantando o hino da Itália.

Uma noite com muitas horas – na minha conta muito mais que o combinado. A duras penas atravessei o deserto noturno e arranquei ao amanhecer deixando para o hospitaleiro a pesada flagrância da dupla – que soube depois – foi autorizada a permanecer no albergue até que o cão peregrino, que iniciara a jornada em Le Puy – cerca de 800 km de Saint Jean – pudesse recuperar as lesões em suas patinhas, e certamente sob as benesses de seu dono refestelar-se com muita água e sabão.

Assim eu e minha soberba seguimos caminhando. A cada tanto, com desfaçatez e passos retos conferia as marcas do cronometro – afinal, aos 46 anos eu era apenas o máximo. Vai caminhar assim, lá adiante! Repetia para que meu cajado não tivesse dúvidas em saber quem era o condutor e quem era o conduzido – assim, seguia ultrapassando quem de fato sabia a diferença entre “andar” e “caminhar”.

Entre o décimo quinto e o décimo sexto dia – assarapantado – não identificava com a mesma facilidade rural as setas amarelas perdidas no universo urbano de Leo

Próximo a Catedral ultrapassei uma senhorinha – cabelos brancos, saia comprida, cajado decorado com muitas bandeirolas e uma mochila enorme.

__Psiu! estais equivocado – el camiño segui a la isquierda.

Pela pronúncia certamente não era espanhola. Agradeci – e por um sentimento não muito claro reduzi a marcha e seguimos conversando.

Era belga – vinha caminhando desde sua casa. Estava com 72 anos. Contou que já tinha caminhado até Jerusalém. Este era seu quarto Caminho de Santiago e o primeiro que fazia só – sem a companhia do marido que havia falecido em um acidente durante uma trilha que faziam na Áustria.

Embrulhei minha soberba, minha vaidade e um monte de outros adjetivos mesquinhos, e desde então venho me dedicando a deixa-los pelos caminhos da vida.

Fonte: Tribuna de São Pedro

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José Palma
José Palma
José Palma, pisciano — nasceu no dia oito de março de 1950 — descobriu que fraternidade era muito mais que uma palavra quando em 1996, realizou o Caminho de Santiago. Empresário, resolveu mudar sua vida após retornar de seu Caminho. Simplificar a rotina e aliviar o peso de sua mochila — uma mudança fácil de planejar e complexa de se executar. Idealizou o Caminho do Sol e desde sua inauguração, dedica-se integralmente ao Caminho e caminhantes. Nesta simbiose, vive intensamente as experiências e o aprendizado de cada peregrino. Continuar sonhando sonhos impossíveis e um dia conseguir tocar o inacessível chão, fazem parte de sua luta, onde a regra é não ceder e sim fazer do “Amor um Vencedor”.

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